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DETALHE DE NOTÍCIA

Apr23
2014

O poder da imaginação de Glória Alegria

Para a maioria dos produtores, um hectare de terra é pouco. Mas para Glória Alegria foi o suficiente para criar uma marca de produtos gourmet seis vezes premiada no Reino Unido. Com apenas dois anos de existência, a Hands on Earth quer ser uma referência no mercado gourmet.

Este é o Alto Douro e Minho típico: casas de lavoura de pedra, rodeadas por dezenas de terrenos de pequena dimensão, cultivados até ao último centímetro de terra. Ao lado de uma alface pode crescer uma erva aromática, debaixo de um pessegueiro pode plantar-se um batatal.

Este é o Minho de Glória Alegria. Aquele que recorda da infância vivida em casa do avô ou dos dias passados no colégio de freiras, a conhecer as plantas e as suas propriedades. Anos mais tarde passou a chamar-lhe lar.

Há 26 anos que vive em São Pedro de Oliveira, numa casa onde o rústico e o elegante se cruzam e onde veio mantendo uma "hortinha" até ao dia em que percebeu que era altura de "fazer alguma coisa daquilo". "Aquilo" eram ervas aromáticas, muitas e variadas, que nasciam espontaneamente em 1 000 m2 de terra.

Glória, tal como a maioria dos agricultores da região, enfrentava um problema de dimensão: produzia demais para ser escoado só pela família e pelos amigos; produzia de menos para se tornar uma grande produtora. "Só havia uma solução: juntar tudo". E assim, sem planear, surgiu o primeiro produto da Hands on Earth, mesmo antes de haver uma marca ou a intenção de criar uma empresa: sal misturado com ervas aromáticas.

Estava em 2009. Seguiram-se 3 anos de experiências, primeiro na cozinha, depois num pequeno "laboratório" de 30 m2 ao lado de casa onde hoje manufatura todos os produtos Hands on Earth. Nós chamamos-lhe "fábrica". Glória Alegria ri-se do termo.

Quando, em 2012, a Hands on Earth é lançada no mercado, surge com mais de 40 produtos diferentes, entre sais aromatizados, fruta desidratada, compotas e flores comestíveis. À aventura de criar uma marca gourmet de referência já se tinham juntado uma das filhas de Glória Alegria e uma amiga de longa data, Dalva Azevedo.

6 Great Taste Awards

2,3% ao ano é quanto deverá crescer o mercado gourmet nos próximos 5 anos, segundo a SaeR, Sociedade de Avaliação de Empresas e Risco. Mas como ganhar espaço em prateleiras já tão preenchidas? "Há um ditado que diz: candeia que vai à frente alumia duas vezes e é isso que estamos a tentar fazer". Dalva Azevedo socorre-se da criatividade cozinhada entre tachos e panelas para se posicionar no mercado. Até hoje não havia nenhuma marca portuguesa a produzir manteiga com flores comestíveis ou a criar compotas feitas ao sol. Quando perguntamos o que são, Glória descreve-nos uma receita ponto por ponto - mas para não revelarmos todos os segredos basta dizer que depois de uma breve cozedura, a calda é colocada num recipiente de vidro, envolvido em tule e o sol encarrega-se de fazer evaporar o excesso de água da compota. E assim, a fruta não se desfaz, fazendo lembrar mais uma conserva do que uma compota. "Não havia standards para isto. Tivemos que esperar um ano pela aprovação do HACCP" (certificação de segurança alimentar). Mas valeu a pena. As compotas são hoje "um sucesso inacreditável".

Uma delas, a de pêssego, garantiu à Hands on Earth um Great Taste Award, uma espécie de Óscar da gastronomia no Reino Unido em 2012. No mesmo ano também foram distinguidas a tisana Amália e o abacaxi desidratado. Em 2013 voltaram a repetir a dose com mais três galardões.

"Da primeira vez nem demos por nada", lembra Glória Alegria. Mas os efeitos no mercado, em especial no português, não se fizeram esperar. O "Amália" foi top de vendas, a compota esgotou. E enquanto as ervas provêm todas do terreno da família, a maior parte da fruta é já comprada a outros produtores.

O poder da montra

Glória ainda se lembra do dia em que "arrogantemente" se dirigiu ao El Corte Ingles, sem marcação prévia, para vender os seus produtos. A marca ainda não existia e Glória nem imaginava a importância de um código de barras. "Aprendi muito. Voltei a casa e recomecei."

Hoje tem lugar garantido na prateleira do Club Gourmet do supermercado espanhol e em nove outras lojas em Portugal continental. Escolhidas a dedo, as lojas são típicas mercearias finas e trendy, montras perfeitas para o público alvo. "Estamos em França, porque um cliente viu os nossos produtos em Serralves". Também chegaram à Holanda de modo semelhante. E até em Macau existe Hands on Earth à venda. "Agora são eles que nos procuram".

50 mil euros é o volume de negócios desta micro empresa que atingiu o equilíbrio nas contas (break even) ao segundo ano. "Este ano tem que subir 25 a 30%, pelo menos" e 30m2 de cozinha são suficientes para isso e muito mais. "Ainda temos espaço para duplicar a faturação", assegura Dalva.

Convidam-nos a sentar à mesa. Dão-nos à prova um pot-pourri de laranja (laranja desidratada com chocolate) e umas bolachas com ervas que estão a desenvolver. Ainda não sabem se as vão lançar no mercado. Neste momento têm um outro condimento em teste na cozinha de amigos: louro com pimento vermelho e sal. Já acumulam 92 produtos em carteira, muitos deles sugeridos por amigos, clientes ou colaboradores. "A nossa certificadora perguntou: não faz nada com cogumelos?" e Glória lá se aventurou uma vez mais nas panelas. Para este ano, têm planeado lançar kits de ervas e bolachas e novos condimentos. "E agora, tá quieta, Glória, não faças mais nada!", remata entre risos. Mas nós apostamos que esta é uma ordem que não vai conseguir cumprir.

Investimento inicial

100 mil euros. 100% capital próprio.

Curiosidades

Em 2013 consumiram:

- 158 kg de ervas secas

- 10 mil frascos

- 700 kg de manga

- 300 kg de cereja

- 1 tonelada de limões

Produtos galardoados no Great Taste Awards

Tisana Amália: erva príncipe e perpétua roxa

Mistura para cabrito: alecrim, louro, salsa, salva e flor de sal

Manga desidratada

Abacaxi desidratado

Compota de pêssego

Compota de alperce

O que é o Great Taste Award?

Criado pela Associação Fine Food do Reino Unido, pretende premiar os mais saborosos produtos do mundo. Considerado por muitos como o Booker Prize da comida, conta com 405 juízes, entre eles 38 críticos gastronómicos. O objetivo é promover a comida artesanal de mais alto nível.

http://www.jn.pt/Fazemosbem/Interior.aspx?content_id=3818181

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